CAPÍTULO SOBRE TRANSMISSÃO VERTICAL

Cadernos Hemominas HTLV – Volume XVI – Capítulo 07 – pág. 150

Capítulo 7

Transmissão Vertical do HTLV

Mariana Amaranto de Souza Damásio

Débora Borowiak Reiss

Gabriela Seabra Freitas

Rafael Henrique Campolina Bastos

Anísia da Soledade Dias Ferreira

Anna Barbara de Freitas Carneiro Proietti

Maria Sueli da Silva Namen Lopes

Introdução

Os vírus linfotrópicos de células T humana tipo 1 (HTLV-1) e tipo 2 (HTLV-2) foram os primeiros retrovírus identificados em humanos, em 1980 e 1982, respectivamente (Gallo, 2005). Tais vírus podem ser transmitidos por via vertical (mãe para criança), principalmente pela amamentação; por via sexual e via parenteral (usuários de drogas intravenosas e transfusão de sangue e componentes). Nas áreas endêmicas, as transmissões vertical e sexual têm sido as principais vias para a disseminação da infecção por HTLV-1. Porém, a hemotransfusão parece ter importante participação na introdução do HTLV em populações não endêmicas (Lopes et al, 2008).

O vírus linfotrópico de células T humana (HTLV) é um retrovírus prevalente em diversas regiões geográficas mundiais. Estima-se que 15 a 20 milhões de indivíduos estejam infectados pelo HTLV-1 (Proietti et al, 2005). Áreas endêmicas incluem o Japão, as ilhas Caribenhas, África, América do Sul, algumas regiões da Romênia e Oriente Médio (Yamaguchi, 1994; Muller et al, 1996; Dumas et al, 1991; Galvão-Castro et al, 1997; Murphy et al, 1991; Laperche et al, 2009).

No Brasil foram realizados estudos em populações de doadores de sangue em que a soroprevalência se mostrou variável entre 0,05-1%, dentre as diferentes áreas geográficas, sendo maior nas regiões norte e nordeste, quando comparadas com a região sul (Gonçalves et al, 2010). A cidade de Salvador, no estado da Bahia foi reportada como a de maior taxa de infecção de HTLV-1 no país, com soroprevalência de 1,3% em doadores e 1,8% da população geral. Enquanto Maringá, no estado do Paraná, apresentou prevalência de 0,05% (Catalan-Soares et al, 2004; Galvão-Castro et al, 1997; Dias-Bastos et al, 2010).

A infecção por HTLV-1/2 pode permanecer não diagnosticada ao longo da vida, visto que cerca de 90% dos indivíduos soropositivos para HTLV-1 permanecerão assintomáticos (Gonçalves et al, 2010) e se não reconhecidos poderão perpetuar a disseminação silenciosa em seus núcleos familiares e sociais (Catalan-Soares et al, 2004).

Embora os determinantes que influenciam no adoecimento dos indivíduos infectados não sejam completamente conhecidos (vide capítulos específicos), a via de transmissão da infecção tem sido associada ao desenvolvimento de doenças associadas com o HTLV-1. Assim, o desenvolvimento de ATL se associa com a via vertical, principalmente pela amamentação (Osame et al, 1990). Segundo Proietti et al (2005), uma estimativa de 1-5% das crianças infectadas pela via vertical poderão desenvolver ATL em algum momento de suas vidas. A mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM/TSP) foi relacionada com a transfusão de sangue (Gessain et al, 1985; Romanelli et al, 2010).

O Brasil, por se tratar de área endêmica, implementou a triagem universal obrigatória de doadores de sangue para HTLV-1/2 desde 1993 (Portaria n° 1376 do Ministério da Saúde). Há recomendação que a triagem para doação de órgãos e tecidos siga as mesmas recomendações aplicáveis para triagem de doadores de sangue, conforme apresentado na Resolução da Diretoria Colegiada – RDC No. 220, de 27 de Dezembro de 2006. Vários estudos de prevalência de HTLV-1/2 em gestantes vêm sendo realizados no território nacional e as políticas públicas visando prevenção de transmissão materno fetal tem sido discutidas, recomendadas e aplicadas de forma heterogênea nos estados brasileiros.

O objetivo deste capítulo é rever as medidas de controle que têm sido implementadas visando prevenção da transmissão vertical de HTLV-1 em países de alta prevalência e descrever o que tem sido feito no Brasil.

Prevalência nas gestantes

A prevalência de infecção por HTLV-1/2 relatada em estudos sobre gestantes podem refletir melhor as taxas de infecção na população geral, quando comparada aos dados de prevalência em doadores de sangue, que geralmente têm menores taxas de infecção, por se tratar de grupo de indivíduos hígidos que são submetidos á critérios de seleção médica.

A triagem para HTLV-1 em gestantes foi introduzida em algumas áreas endêmicas, incluindo o Japão, Martinica, e alguns estados do Brasil. Mas ainda é muito menos difundida do que a triagem de doadores de sangue (Mello et al, 2014).

O Japão é considerado uma das principais áreas endêmicas para HTLV-1 no mundo, e é um dos pioneiros na pesquisa da transmissão deste retrovírus. A soroprevalência da infecção pelo HTLV-1 em gestantes no Japão varia de 400-500 mulheres para dez mil habitantes em áreas de alta endemicidade, enquanto áreas não endêmicas do país apresentam variação de 10-100 para dez mil (Fujino et al, 2000).

A tabela 1 reporta estudos de prevalência em gestantes realizados em regiões de baixa e de alta endemicidade no Japão, Nigéria, Martinica, Peru, Guiana Francesa e Brasil, e ainda dados de estudos em gestantes realizados em países europeus.

Tabela 1 – Prevalência de gestantes infectadas pelo HTLV-1 de acordo com a área geográfica no mundo. Área Prevalência

(n/10,000)

Referências
Nigéria 167 Forbi, 2007
Japão
Áreas endêmicas 400-500 Fujino, 2000
Áreas não endêmicas 10-100
Alemanha 0.7 Taylor, 2005
França 11.5
Espanha 2 Trevino, 2009
Martinica 193 Mansuy, 1999
Peru 170 Alarcon, 2006
Jamaica 200 Dowe, 1998
Gana 250 Armah, 2006
Guiana Francesa 344 Tortevoye, 2005
Brasil 0.05 – 100 Dal Fabbro, 2008; Figueiró-Filho, 2010; Machado-Filho, 2010; Moxotó, 2007; Olbrich, 2004; Andrade, 1999; Souza, 2012

 

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