RELATÓRIO DO 4º CONGRESSO BRASILEIRO SOBRE HIV/AIDS E VÍRUS RELACIONADOS – REUNIÃO COM REPRESENTANTES DOS PORTADORES DO VÍRUS HTLV DE SALVADOR E OUTRAS CIDADES DA BAHIA

O Dr. Carlos Brites (BA) fez a abertura do Congresso, trazendo para todos nós uma reflexão sobre o aumento de pessoas infectadas por HIV.  Porque isto está acontecendo? Porque estamos retrocedendo se “temos” o melhor programa de DST/AIDS do mundo? Enquanto outros Países estão conseguindo conter a epidemia, nós estamos na “contra mão” da história.

Esclareceu sobre os objetivos do evento, falou as apresentações das pesquisas feitas nos últimos dois anos, avanços na linha farmacêutica e novos projetos que seriam apresentados por novos pesquisadores.

A Dra. Ana Gabriela Travassos (BA) palestrou sobre o HPV em portador de HIV. As dificuldades no tratamento com diagnóstico tardio e a alta prevalência de HPV anal em HSH. Falou também da opção de tratar sem cirurgia, quando diagnosticado cedo e da evolução para o câncer. No debate após a apresentação, todos foram unânimes da urgência em expandir a vacinação contra o HPV também para a população masculina, de onze a vinte seis anos.

Hoje o Brasil possui 35,3 milhões de indivíduos infectados por HIV; 3,3 milhões de crianças contaminadas pela transmissão, que ainda é um grande desafio mesmo com a oferta de TARV nas unidades básicas de saúde.

A TARV aumentou a expectativa de vida do paciente, mas não é uma vida considerada normal, principalmente se o início do tratamento for tardio. Hoje, 40% dos pacientes tratados não conseguem elevar o nível de CD4 por causa da mutação do vírus.

Muito discutido foi o efeito colateral do tratamento. As implicações que os antirretrovirais causam ao organismo, principalmente o envelhecimento precoce. Quase 2/3 das mortes na era HAART não são associadas a AIDS.

Com relação ao coinfecção HIV/HCV, foi relatado que a HC impede o aumento do CD4. O HIV acelera a evolução da hepatite C. A TARV pode reduzir a progressão da fibrose, mas não se iguala a da monoinfecção pelo HVC. A doença hepática associada à HCV tem se transformado na principal causa de morbi/mortalidade entre os coinfectados HIV/HCV.

HIV/HCV – epidemiologia atual

– Aproximadamente 25% dos pacientes HIV+ são infectados com HCV;

– Aproximadamente 80% dos pacientes HIV+ e que usam drogas injetáveis são coinfectados com HCV

– Todos os pacientes infectados com HIV devem ser testados para HCV

HIV+ tem 4,1 vezes mais risco de adquirir o HCV que os soronegativos.

Uma observação feita em uma das palestras me chamou muito a atenção, o fato de que a mulher, por uma questão genética, recompõe melhor a imunidade que o homem.

Apesar da HAART, um aumento da prevalência de doenças neurodegenerativas associadas ao HIV (HAND) tem sido verificado. O diagnóstico HAND tem se baseado em critérios clínicos, na exclusão de outras causas de demência e nos testes neuropsicológicos.

O envelhecimento de indivíduos com HIV parece estar associado a um maior declínio cognitivo quando comparado com o envelhecimento do indivíduo sem o HIV. O bom controle clínico da infecção pelo HIV parece não mudar o declínio cognitivo.

O estudo que foi apresentado pela Dra. Adele Caterino (SP), mostrou que a coinfecção HIV/HTLV-1 tem uma evolução mais rápida para a AIDS, enquanto que HIV/HTLV-2 tem uma progressão mais lenta.  A conclusão do trabalho mostrou que o baixo percentual de coinfecção HIV/HTLV detectado neste estudo, pode estar relacionado à política de redução de danos do Estado de São Paulo, que começou em Santos no ano de 1989. Foi dito também que os coinfectados com HTLV apresentam uma melhor resposta ao tratamento com antirretrovirais.

20% das pessoas coinfectadas HIV/HTLV por transfusão, têm menor sobrevida.

HCV/HTLV < morbidade e incidência de câncer de fígado.

O HTLV na tripla infecção protege o sistema imune.

A palestra do Dr. David Watkins foi bastante impactante. Ele nos informou que já foram testadas três vacinas, mas, infelizmente, falharam. Que nos testes com macacos, os mesmos foram infectados e medicados em seguida e, após a suspensão do medicamento em vinte e quatro dias o vírus voltou.

É importante que o tratamento seja iniciado logo após uma situação de risco, pois o prazo é de cinco dias para combater com vírus com sucesso.  Foi citado também que o sexo anal é a forma mais fácil de contaminação pelo HIV e não a vaginal como se pensava. “Isso talvez justifique o aumento de novos casos entre os jovens HSH” (David Watkins).

A transmissão vaginal ocorre em cinco dias, enquanto que a anal em poucas horas o vírus atravessa a mucosa.

A Dra. Beatriz Grinsteijn (RJ), palestrou sobre a importância da PREP e o impacto positivo na qualidade de vida de casais sorodiscordantes.  A PREP também é recomendada para grupos de “alto risco”, HSH e transgênero.

A meu questionamento é: quando a pessoa começa a fazer uso da Truvada, ela é avisada dos efeitos colaterais gravíssimos?

Fiquei surpresa em saber que na Inglaterra, onde o acesso ao tratamento é amplo, o índice de pessoas infectadas pelo HIV não caiu. Em São Francisco (EUA) está caindo graças à testagem massificada.

Resultado do último estudo feito:

700.000 foram diagnosticadas com HIV

500.000 não foram diagnosticadas

Dessas 700.000 apenas 442.000 tiveram acesso ao médico

O prazo máximo para início do tratamento após o diagnóstico é de 90 dias.

Após 12 meses só 359.000 continuam o tratamento, o restante abandonou por motivos diversos. Desses 359.000, 239.000 estão com carga viral indetectável.

A apresentação de trabalhos de alunos foi bastante otimista com relação a novos tratamentos.

A reunião com portadores de htlv da Bahia teve um quorum maior do que eu esperava e, nossas discussões também ultrapassaram as minhas expectativas.

Na realidade, se for comparar o atendimento que eles recebem com o atendimento do Rio de Janeiro, posso dizer que estamos “perdidos”.

Naturalmente eles me cobraram o resultado das reivindicações que foram entregues ao Dr. Fábio Mesquita em 2013. Informei que já estão em andamento, mas que o processo é demorado. Passei informações sobre as articulações que tenho feito junto ao Departamento de DST/AIDS e movimentos sociais.

Fiquei muito constrangida ao ver o avanço da doença em alguns pacientes, em tão curto espaço de tempo. É preciso que alguma providência urgente seja tomada para que o acesso à fisioterapia não seja privilégio de poucos, e sim para todos. Muitos não conseguem seguir o tratamento porque esbarram na burocracia do direito ao transporte. Isso não acontece só em Salvador, acontece em todas as grandes Capitais. A interrupção da fisioterapia é “mortal” para o portador com HAM/TSP, então é de vital importância que cada Estado, principalmente aqueles com alta prevalência de portadores de htlv, crie um Grupo de Trabalho ou mesmo uma ONG para que possamos trabalhar em rede. Precisamos de mais união entre os portadores. O desânimo entre eles é visível e triste de constatar. Eles sentem-se abandonados à própria sorte por não terem tratamento específico. Ficam, literalmente, sentados na cadeira observando o avanço da doença. É impressionante o índice de portadores de htlv com HAM/TSP na Bahia. Segundo pesquisadores, isso se deve a transmissão vertical do vírus, que é a forma mais rápida do portador chegar à fase da HAM/TSP.  Então, mais uma vez, concordamos que precisamos pressionar as autoridades para que a prevenção comece no pré-natal.

O grupo marcou uma reunião para o próximo dia 30/08, quando então eles irão decidir se formarão uma ONG e quem fará parte da Diretoria. Eu passei todas as informações necessárias sobre a parte burocrática para fundar uma ONG. Agora vou aguardar contato deles, para que possamos nos encontrar novamente já com o processo de institucionalização em andamento Precisamos alinhar nossas iniciativas e articular em conjunto.

Sandra Do Valle e Dra. Adele Caterino (USP/SP)

Reunião com o grupo que representa os portadores de htlv da Bahia

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